sábado, 2 de fevereiro de 2019

O problema de se excluir mulheres trans e travestis

O feminismo radical, junto de grupos conservadores, é o principal difusor da ideia de que mulheres transexuais são homens tentando se infiltrar em espaços femininos, com o principal objetivo de assediar e estuprar mulheres, e com a missão secundária de exercer controle sobre esses espaços.

Essa ideia é explicitamente transfóbica, primeiramente ao entender mulheres transexuais como homens, segundo ao pintar travestis e mulheres trans como assediadoras, estupradoras e controladoras - consequência da mesma negação da feminilidade das mulheres trans e travestis. Não se pretende neste momento entrar na discussão sobre o que torna alguém mulher ou homem. Partimos do principio de que mulheres trans são mulheres, e em outro texto se tratará a questão.



Muitas vezes, as feministas radicais transexclusionárias (ou seja, que excluem pessoas trans) passarão a citar noticias de casos de violência, física e sexual, praticada por travestis contra mulheres, em uma tentativa de embasar este argumento. O primeiro problema é que esses dados são jornalísticos, ou seja, são divulgados justamente pela notoriedade, relevância e raridade do caso. Mesmo os estudos que existem, supostamente comprovando aumentos em casos de estupros após avanço de direitos trans, comprovam apenas um maior numero de noticias sendo produzidas sobre o assunto. Isto faz todo sentido quando paramos para observar que a visibilidade trans vem aumentando nos últimos anos.

Além disso, no que diz respeito a casos de violência física, é preciso se lembrar que mulheres trans e travestis são um grupo extremamente marginalizado, com 90% estando em situação de prostituição[. Isso faz com que esta seja uma população extremamente brutalizada, tanto pela opressão que sofre, quanto pelo envolvimento com redes criminosas, cafetões, etc. Surge uma necessidade de se aprender a recorrer a violência para resolução de seus problemas: primeiro em forma de autodefesa coletiva, segundo para seus problemas pessoais. Muito mais comum que casos de violência contra mulheres cis, estão casos de autodefesa de travestis que reagiram a agressões, muitas vezes em grupo, e até mesmo casos de travestis defendendo mulheres cisgêneras.

Existe uma versão atenuada deste argumento, mas ainda igualmente problemática. Consiste em: "a preocupação não é com mulheres trans e travestis se inserindo nestes espaços em si, mas que dar estes direitos a elas significa abrir um precedente para que homens cis venham à abusar desses espaços". Esta seria então a razão para negar o direito a mulheres transexuais, não a transfobia, mas uma proteção contra homens cis, que seriam os verdadeiros vilões.

Ainda que aqueles que defendam esse ponto de vista não se considerem transfóbicos, continuam reproduzindo transfobia. A razão é simples: é visto como aceitável deixar mulheres trans e travestis a mercê de homens cis, enquanto isso beneficiar mulheres cis. Vidas trans importam menos. O fato é que mulheres trans não reclamam espaços femininos por mera razão de quererem se sentir incluídas, mas, sendo mulheres, também estão sujeitas ao machismo e a misoginia, e precisam recorrer a espaços seguros femininos para terem segurança. No que diz respeito ao movimento feminista, mulheres trans também compartilham interesses antipatriarcais, por estarem sujeitas a opressão que vem deste.

E não apenas excluir pessoas trans para preservar espaços de mulheres cisgêneras é discriminatório e violento, como extremamente ineficaz. Nenhum homem precisa de precedente para invadir espaços seguros femininos, existem diversos casos de homens que agrediram, assediaram e estupraram mulheres em banheiros femininos, conhecendo ou não a vitima. Muitas vezes, mesmo com presença de seguranças, o homem apenas precisa dizer que "está discutindo com sua namorada" para entrar em um espaço desses. Também não precisam "se vestir de mulher" para tomar espaço no feminismo, fazem isso assumidamente como homens, ou valorizam as vozes de mulheres que falam contra o feminismo ou contra uma pauta especifica feminista. 

Por fim, existe outro problema: como fiscalizar? A única forma de se saber com certeza se alguém é uma mulher transexual ou travesti seria fazendo um exame de DNA, tendo em vista que mesmo checando a genitália, seria impossível saber quando alguém optou por fazer cirurgia de redesignação sexual. Caso o critério seja a genitália, a única forma de fiscalização ainda seria verificar os órgãos sexuais de toda mulher que deseja se utilizar de um espaço feminino - definitivamente, nada acolhedor. Qualquer critério baseado em aparência e passibilidade está sujeito a subjetividade de quem olha, pois existem muitas mulheres trans e travestis que são indissociáveis socialmente de mulheres cis, e mulheres cis que por sua vez, apresentam características lidas como masculinas e são confundidas com travestis. Nessa opção passamos a excluir até mesmo mulheres cisgêneras por causa de um padrão estético.

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