Texto
de Yuna Vitória
Eu
não ia me posicionar sobre a polêmica da jogadora Tiffany que foi
reacendida recentemente, fervendo de forma bastante sensacionalista,
como de praxe, o debate sobre o acesso de pessoas trans ao esporte.
Não o faria por considerar a discussão escusa, pouco produtiva e
extremamente cansativa, uma aplicação de energia que reage a
miradas cisnormativas cotidianas e superficiais, mas diante do número
de pessoas que me procuraram com dúvidas sobre o assunto, muitas
extremamente queridas, e pensando no compromisso - e responsabilidade
- do meu ativismo, resolvi fazê-lo.
Bom,
posso começar dizendo que o próprio questionamento de se uma pessoa
trans pode ou não pode acessar algo que pessoas cis na mesma
identidade de gênero acessam tranquilamente é, em si, transfóbico,
dependendo a que esse "algo" se refere. No caso, o direito
ao trabalho e ao lazer. Mirar seletivamente em experiências trans
ignorando toda a complexidade do assunto que não exclui pessoas cis
de suas problemáticas é partir de epistemologias cisnormativas -
para irmos além do conceito de transfobia - e por isso o risco de um
posicionamento discriminatório.
Depois,
posso pontuar que as críticas que ganharam maior visibilidade na
mídia estão alicerçadas na ignorância profunda sobre a
transgeneridade ou na pura e capciosa desonestidade intelectual que
se faz valer de argumentos pseudocientíficos para comover aqueles
que se contentam com o raso.
Dito
isso, posso facilitar algumas discussões, sem encerrá-las, ao
contrário. Primeiro:
Força
física, corpo, corporalidade, sexo, biologia: Teria a mulher trans
mais atributos que mulheres cis, como resistência, disposição,
energia?
Não
necessariamente. Não por ser trans. Quando uma pessoa designada
homem no nascimento se submete a uma hormonização para transição
de gênero, aquilo que o discurso biomédico chama de terapia
hormonal, muita coisa muda a nível morfofuncional, sobretudo
fisiologicamente, mas também anatomicamente, dependendo do avanço
dos resultados, tempo de tratamento e idade de início. Isso
significa que nosso corpo se reconfigura em diversas dimensões,
inclusive em status de funcionamento celular. Nosso sistema endócrino
começa a operar de forma extremamente semelhante ao de mulheres cis
na medida em que as taxas hormonais se equiparam. Perdermos massa
muscular e ganhamos gordura, que se redistribui como em corpos de
fêmea. Até densidade óssea diminui. A propensão de ganho de massa
magra e perda de massa gorda também é afetada. Nossos riscos de
trombose, osteoporose, AVE (antigo AVC), embolia pulmonar, são mais
próximos dos índices femininos que masculinos, justamente por conta
das mudanças hormonais. O bloqueio da testosterona, a qual se
atribui todas as qualidades socialmente interpretadas como masculinas
e em superioridade às femininas, somado ao acréscimo de estrogênio,
especificamente o estradiol, nos coloca em situações conformes e
cujas variações, de tão pequenas, se manifestam inclusive entre
mulheres cis. Um dos maiores e mais comuns erros ao abordar esse
assunto, portanto, é tratar corpos de mulheres trans como corpos de
homens cis utilizando uma suposta verdade biológica. Precisamos
romper com visões rasteiras e essencialista de gênero que se vendem
como fatos objetivos do sexo humano. Ademais, quando falamos dessas
características biológicas, precisamos observar a insuficiência
dos agentes endógenos (internos) na determinação das desigualdades
apregoadas como padrão entre sujeitos generificaros, tendo os
fatores exógenos (externos) poderosa influência no desenvolvimento
da força, tamanho, resistência, concentração, fôlego, entre
outros, se nem a biologia enquanto campo considera esse determinismo.
Devemos então levantar questões geográficas, sociais e culturais
em nossas considerações, sob o risco de vendermos alguma ideologia
cissexista qualquer como evidência biológica - algo não muito
novo, basta observar o histórico de pesquisas ditas da biologia que
investigavam tendenciosamente - ou sugeriam/constatavam - a
supremacia branca, masculina e, agora, cisgênera.
O
mais honesto nesse debate é perceber que as informações
fisiológicas, se importam, não são tão díspares, outrossim, não
são autossuficientes ou universais.
Segundo:
Por que selecionamos apenas existências trans como alvo?
Se,
como já visto, fatores biológicos não são suficientes na produção
de verdades sobre a superioridade de atributos de gênero, por assim
dizer, e sendo esses atributos modificados também internamente
através de fármacos ou cirurgias, aproximando experiências trans e
cis, por que apenas uma delas pressupõe fraude ou ameaça? Melhor,
quem ou qual grupo se beneficia dessa ideia de superioridade
biológica? Não joguemos décadas de feminismo fora em prol de
pretensas "materialidades" do sexo. Vamos ultrapassar esses
misticismos, se o próprio saber biológico nasceu da ruptura da
ciência com o charlatanismo no decorrer do avanço tecnológico.
Quantas mulheres cis têm seus corpos invadidos a nível citológico
apenas para validar suas aptidões ou mesmo suas identidades de
gênero? A resposta não é difícil. Se nenhuma, apenas as que são
confundidas com homens ou mulheres trans (como no caso de mulheres
masculinizadas), fato que só escancara a transfobia, o cissexismo e
o racismo que perpassam essas investigações, já que nesse hall as
mulheres negras são as mais vulneráveis. Não esqueçamos as
origens paternalistas dos testes de aferição do sexo em campeonatos
e como isso funcionou muito bem para a manutenção dos privilégios
e prestígios da categoria de homens cisgêneros. Pulmão maior?
Ossos mais fortes? Músculos mais tonificados? Quantas mulheres cis
não os possuem, por fatores externos ou mesmo genéticos? Isso
retira sua condição de mulher ou permite que coloquem seu corpo sob
dúvida? Entretanto, aqui a biologia é desinteressante, porque
importa à ela apenas a validação da transfobia e do cissexismo, a
investigação parcial da transgeneridade, enquanto a cisgeneridade
permanece tida como neutra, assim como a própria ciência - e ambas
falham miseravelmente nessa neutralidade na prática.
Terceiro:
Transmisoginia, por que mulheres trans incomodam mulheres e homens
cis e quem lucra com isso?
Certa
vez li a notícia de um lutador trans que inicialmente competia com
mulheres por designação de seu treinador. Teoricamente as pessoas
transfóbicas que são contrárias à presença de mulheres trans
competindo com mulheres cis deveriam concordar com isso, afinal,
teria o homem trans os mesmos atributos biológicos das mulheres cis,
as famosas fêmeas adultas humanas do feminismo nescau cereal
radical. O que ocorreu, porém, foi justamente o contrário,
treinadores e competidoras, a própria sociedade expert no assunto,
foram contra, alegando a diferença orgânica entre ele e elas. Aqui
as mudanças hormonais fazem sentido e qualquer leigo consegue
perceber isso. Quando falamos de mulheres trans as pessoas parecem
esquecer ou perder essa capacidade analítica. Ora, se ele é
diferente das mulheres, mulheres trans também o são de homens. Mas
quem precisa de coerência e embasamento quando o assunto,
nitidamente, não é sobre biologia, mas sobre humanização das
pessoas trans? Perceba, homens trans são mais fortes que mulheres
cis por conta dos hormônios, dizem os cisativistas. E defendem que
eles lutem com homens cis não em respeito às suas identidades de
gênero, mas por considerarem homens cisgêneros oponentes mais
resistentes, superiores, que teriam condições melhores de
enfrentamento a essa "super mulher bombada". O lutador do
exemplo passou a lutar na categoria masculina e seus indicadores de
vitória não mudaram consideravelmente, nocauteando diversos machos.
Alguém reclamou de suas vitórias? Não. Na verdade a resposta é a
surpresa, por ele ser mais forte que "homens de verdade".
Já Tíffany tem suas vitórias deslegitimadas. Dizem que ela vence
por ser homem. E algum feminismo assimila esse discurso. O que se
está pregando, então? Que homens cis são mais fortes que mulheres
cis. Homens trans são mais fortes que mulheres cis. Mulheres trans
são mais fortes que mulheres cis. E tudo isso convive paradoxalmente
no mesmo argumento. Alguns chamam essa lógica de direita política.
Outros de biologia. Outras de feminismo materialista.
Eu
chamo de misoginia mesmo.
Implicações
legais: Posso expulsar uma mulher trans da minha equipe feminina?
Muito
foi dito sobre os aspectos biológicos que figuram o senso comum,
mais para esfarelar alguns mitos do que para reforçar suas
importâncias. Igualmente eu não poderia deixar de adentrar a minha
zona de (des)conforto, o Direito, sobretudo o direito civil.
Compreendendo toda a necessidade de se discutir a cisnormatividade na
esfera jurídica, com base nos dispositivos legais que temos hoje,
poderia alguém expulsar uma mulher trans de sua equipe ou impedí-la
de disputar em sua categoria em função de sua transgeneridade?
Certamente não, a menos que judicialize e consiga convencer o
magistrado a, inconstitucionalmente, dispor dos direitos da
personalidade previstas no código civil e asseguradas pela
constituição federal. Retificada ou pela política do nome social,
prenome e sexo de pessoas autodeclaradas trans devem ser respeitados,
segundo decisão do supremo tribunal federal, regulamentada pelo
conselho nacional de justiça e, no caso do nome social, do decreto
8.727 de 2016 com aval da presidência da república. Nada, até que
os tribunais superiores se manifestem, pode passar por cima dessas
conquistas, sendo os documentos oficiais suficientes na comprovação
da legalidade e legitimidade desses homens ou mulheres em suas
modalidades de gênero. Sobre a argumentação da não comprovada
"vantagem competitiva", até que o COI, entidade máxima
com poderes legislativos na esfera do esporte olímpico, se coloque
contrário - e cuja posição pode ser questionada, dependendo dos
métodos ou epistemologias adotados, como fora no passado por pessoas
intersexo -, nada pode ser feito, sendo o COI instância deliberativa
e consultiva, passível ainda de críticas e recorrências judiciais.
Quer
discutir, discuta, em âmbito intelectual, filosófico, moral,
religioso. Quer destituir? Dialogue com um juiz, pois até segunda
ordem Tíffany fica onde está. Ela e nós.
Essa
é minha contribuição ao debate e espero ter ajudado quem me
procurou e quem caiu de paraquedas nessa publicação. Que possamos
complexificar essas discussões para evitarmos a demagogia rasteira
que afeta mais categorias do que se pode perceber no primeiro
contato.
Enquanto
debatemos casos pontuais e famosos de pessoas trans em concursos ou
competições, pessoas trans cotidianamente e com requintes de
crueldade estão sendo impedidas de compor as atléticas de suas
faculdades, os grupinhos de esporte da escola, as artes marciais e
até o simples baba, em bom baianês (pelada, futebol), da esquina,
porque pessoas cisgêneras estão falsamente e hipocritamente
preocupadas com as reações psicofísicas, bioquímicas, celulares
dessas pessoas, sem nenhuma garantia de que realmente sabem o que
estão fazendo ou falando.
Além
de conhecimento, vamos exercitar a empatia e a sensibilidade.
Sem
conto de fadas onde príncipes e princesas guerreiam entre si e cada
um em seu quadrado.
Isso
é falar de materialidade e objetividade, compreender a estrutura e a
realidade prática das manifestações dessa abstração chamada
gênero.
Postagem original: https://www.facebook.com/yurettayuna/posts/2074541815995956
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