terça-feira, 16 de abril de 2019

Pessoas trans no esporte


Texto de Yuna Vitória


Eu não ia me posicionar sobre a polêmica da jogadora Tiffany que foi reacendida recentemente, fervendo de forma bastante sensacionalista, como de praxe, o debate sobre o acesso de pessoas trans ao esporte. Não o faria por considerar a discussão escusa, pouco produtiva e extremamente cansativa, uma aplicação de energia que reage a miradas cisnormativas cotidianas e superficiais, mas diante do número de pessoas que me procuraram com dúvidas sobre o assunto, muitas extremamente queridas, e pensando no compromisso - e responsabilidade - do meu ativismo, resolvi fazê-lo.

Bom, posso começar dizendo que o próprio questionamento de se uma pessoa trans pode ou não pode acessar algo que pessoas cis na mesma identidade de gênero acessam tranquilamente é, em si, transfóbico, dependendo a que esse "algo" se refere. No caso, o direito ao trabalho e ao lazer. Mirar seletivamente em experiências trans ignorando toda a complexidade do assunto que não exclui pessoas cis de suas problemáticas é partir de epistemologias cisnormativas - para irmos além do conceito de transfobia - e por isso o risco de um posicionamento discriminatório.
Depois, posso pontuar que as críticas que ganharam maior visibilidade na mídia estão alicerçadas na ignorância profunda sobre a transgeneridade ou na pura e capciosa desonestidade intelectual que se faz valer de argumentos pseudocientíficos para comover aqueles que se contentam com o raso.
Dito isso, posso facilitar algumas discussões, sem encerrá-las, ao contrário. Primeiro:
Força física, corpo, corporalidade, sexo, biologia: Teria a mulher trans mais atributos que mulheres cis, como resistência, disposição, energia?
Não necessariamente. Não por ser trans. Quando uma pessoa designada homem no nascimento se submete a uma hormonização para transição de gênero, aquilo que o discurso biomédico chama de terapia hormonal, muita coisa muda a nível morfofuncional, sobretudo fisiologicamente, mas também anatomicamente, dependendo do avanço dos resultados, tempo de tratamento e idade de início. Isso significa que nosso corpo se reconfigura em diversas dimensões, inclusive em status de funcionamento celular. Nosso sistema endócrino começa a operar de forma extremamente semelhante ao de mulheres cis na medida em que as taxas hormonais se equiparam. Perdermos massa muscular e ganhamos gordura, que se redistribui como em corpos de fêmea. Até densidade óssea diminui. A propensão de ganho de massa magra e perda de massa gorda também é afetada. Nossos riscos de trombose, osteoporose, AVE (antigo AVC), embolia pulmonar, são mais próximos dos índices femininos que masculinos, justamente por conta das mudanças hormonais. O bloqueio da testosterona, a qual se atribui todas as qualidades socialmente interpretadas como masculinas e em superioridade às femininas, somado ao acréscimo de estrogênio, especificamente o estradiol, nos coloca em situações conformes e cujas variações, de tão pequenas, se manifestam inclusive entre mulheres cis. Um dos maiores e mais comuns erros ao abordar esse assunto, portanto, é tratar corpos de mulheres trans como corpos de homens cis utilizando uma suposta verdade biológica. Precisamos romper com visões rasteiras e essencialista de gênero que se vendem como fatos objetivos do sexo humano. Ademais, quando falamos dessas características biológicas, precisamos observar a insuficiência dos agentes endógenos (internos) na determinação das desigualdades apregoadas como padrão entre sujeitos generificaros, tendo os fatores exógenos (externos) poderosa influência no desenvolvimento da força, tamanho, resistência, concentração, fôlego, entre outros, se nem a biologia enquanto campo considera esse determinismo. Devemos então levantar questões geográficas, sociais e culturais em nossas considerações, sob o risco de vendermos alguma ideologia cissexista qualquer como evidência biológica - algo não muito novo, basta observar o histórico de pesquisas ditas da biologia que investigavam tendenciosamente - ou sugeriam/constatavam - a supremacia branca, masculina e, agora, cisgênera.
O mais honesto nesse debate é perceber que as informações fisiológicas, se importam, não são tão díspares, outrossim, não são autossuficientes ou universais.
Segundo: Por que selecionamos apenas existências trans como alvo?
Se, como já visto, fatores biológicos não são suficientes na produção de verdades sobre a superioridade de atributos de gênero, por assim dizer, e sendo esses atributos modificados também internamente através de fármacos ou cirurgias, aproximando experiências trans e cis, por que apenas uma delas pressupõe fraude ou ameaça? Melhor, quem ou qual grupo se beneficia dessa ideia de superioridade biológica? Não joguemos décadas de feminismo fora em prol de pretensas "materialidades" do sexo. Vamos ultrapassar esses misticismos, se o próprio saber biológico nasceu da ruptura da ciência com o charlatanismo no decorrer do avanço tecnológico. Quantas mulheres cis têm seus corpos invadidos a nível citológico apenas para validar suas aptidões ou mesmo suas identidades de gênero? A resposta não é difícil. Se nenhuma, apenas as que são confundidas com homens ou mulheres trans (como no caso de mulheres masculinizadas), fato que só escancara a transfobia, o cissexismo e o racismo que perpassam essas investigações, já que nesse hall as mulheres negras são as mais vulneráveis. Não esqueçamos as origens paternalistas dos testes de aferição do sexo em campeonatos e como isso funcionou muito bem para a manutenção dos privilégios e prestígios da categoria de homens cisgêneros. Pulmão maior? Ossos mais fortes? Músculos mais tonificados? Quantas mulheres cis não os possuem, por fatores externos ou mesmo genéticos? Isso retira sua condição de mulher ou permite que coloquem seu corpo sob dúvida? Entretanto, aqui a biologia é desinteressante, porque importa à ela apenas a validação da transfobia e do cissexismo, a investigação parcial da transgeneridade, enquanto a cisgeneridade permanece tida como neutra, assim como a própria ciência - e ambas falham miseravelmente nessa neutralidade na prática.
Terceiro: Transmisoginia, por que mulheres trans incomodam mulheres e homens cis e quem lucra com isso?
Certa vez li a notícia de um lutador trans que inicialmente competia com mulheres por designação de seu treinador. Teoricamente as pessoas transfóbicas que são contrárias à presença de mulheres trans competindo com mulheres cis deveriam concordar com isso, afinal, teria o homem trans os mesmos atributos biológicos das mulheres cis, as famosas fêmeas adultas humanas do feminismo nescau cereal radical. O que ocorreu, porém, foi justamente o contrário, treinadores e competidoras, a própria sociedade expert no assunto, foram contra, alegando a diferença orgânica entre ele e elas. Aqui as mudanças hormonais fazem sentido e qualquer leigo consegue perceber isso. Quando falamos de mulheres trans as pessoas parecem esquecer ou perder essa capacidade analítica. Ora, se ele é diferente das mulheres, mulheres trans também o são de homens. Mas quem precisa de coerência e embasamento quando o assunto, nitidamente, não é sobre biologia, mas sobre humanização das pessoas trans? Perceba, homens trans são mais fortes que mulheres cis por conta dos hormônios, dizem os cisativistas. E defendem que eles lutem com homens cis não em respeito às suas identidades de gênero, mas por considerarem homens cisgêneros oponentes mais resistentes, superiores, que teriam condições melhores de enfrentamento a essa "super mulher bombada". O lutador do exemplo passou a lutar na categoria masculina e seus indicadores de vitória não mudaram consideravelmente, nocauteando diversos machos. Alguém reclamou de suas vitórias? Não. Na verdade a resposta é a surpresa, por ele ser mais forte que "homens de verdade". Já Tíffany tem suas vitórias deslegitimadas. Dizem que ela vence por ser homem. E algum feminismo assimila esse discurso. O que se está pregando, então? Que homens cis são mais fortes que mulheres cis. Homens trans são mais fortes que mulheres cis. Mulheres trans são mais fortes que mulheres cis. E tudo isso convive paradoxalmente no mesmo argumento. Alguns chamam essa lógica de direita política. Outros de biologia. Outras de feminismo materialista.
Eu chamo de misoginia mesmo.
Implicações legais: Posso expulsar uma mulher trans da minha equipe feminina?
Muito foi dito sobre os aspectos biológicos que figuram o senso comum, mais para esfarelar alguns mitos do que para reforçar suas importâncias. Igualmente eu não poderia deixar de adentrar a minha zona de (des)conforto, o Direito, sobretudo o direito civil. Compreendendo toda a necessidade de se discutir a cisnormatividade na esfera jurídica, com base nos dispositivos legais que temos hoje, poderia alguém expulsar uma mulher trans de sua equipe ou impedí-la de disputar em sua categoria em função de sua transgeneridade? Certamente não, a menos que judicialize e consiga convencer o magistrado a, inconstitucionalmente, dispor dos direitos da personalidade previstas no código civil e asseguradas pela constituição federal. Retificada ou pela política do nome social, prenome e sexo de pessoas autodeclaradas trans devem ser respeitados, segundo decisão do supremo tribunal federal, regulamentada pelo conselho nacional de justiça e, no caso do nome social, do decreto 8.727 de 2016 com aval da presidência da república. Nada, até que os tribunais superiores se manifestem, pode passar por cima dessas conquistas, sendo os documentos oficiais suficientes na comprovação da legalidade e legitimidade desses homens ou mulheres em suas modalidades de gênero. Sobre a argumentação da não comprovada "vantagem competitiva", até que o COI, entidade máxima com poderes legislativos na esfera do esporte olímpico, se coloque contrário - e cuja posição pode ser questionada, dependendo dos métodos ou epistemologias adotados, como fora no passado por pessoas intersexo -, nada pode ser feito, sendo o COI instância deliberativa e consultiva, passível ainda de críticas e recorrências judiciais.
Quer discutir, discuta, em âmbito intelectual, filosófico, moral, religioso. Quer destituir? Dialogue com um juiz, pois até segunda ordem Tíffany fica onde está. Ela e nós.
Essa é minha contribuição ao debate e espero ter ajudado quem me procurou e quem caiu de paraquedas nessa publicação. Que possamos complexificar essas discussões para evitarmos a demagogia rasteira que afeta mais categorias do que se pode perceber no primeiro contato.
Enquanto debatemos casos pontuais e famosos de pessoas trans em concursos ou competições, pessoas trans cotidianamente e com requintes de crueldade estão sendo impedidas de compor as atléticas de suas faculdades, os grupinhos de esporte da escola, as artes marciais e até o simples baba, em bom baianês (pelada, futebol), da esquina, porque pessoas cisgêneras estão falsamente e hipocritamente preocupadas com as reações psicofísicas, bioquímicas, celulares dessas pessoas, sem nenhuma garantia de que realmente sabem o que estão fazendo ou falando.
Além de conhecimento, vamos exercitar a empatia e a sensibilidade.
Sem conto de fadas onde príncipes e princesas guerreiam entre si e cada um em seu quadrado.
Isso é falar de materialidade e objetividade, compreender a estrutura e a realidade prática das manifestações dessa abstração chamada gênero.



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