sexta-feira, 5 de julho de 2019

Os problemas do "Modelo Nordico"

As rads costumam defender bastante o chamado modelo nórdico de combate a prostituição. A proposta deste modelo é que ele seria humanizado, não criminalizando trabalhadoras do sexo, mas sim seus compradores e quem quer que lucre com o trabalho fora a trabalhadora. Dessa forma focaria muito mais em combater a demanda do que a oferta, e em complemento haveriam programas para retirar mulheres da situação de prostituição.

A triste verdade é que este modelo continua servindo para perseguição de trabalhadoras do sexo e sua desumanização.

O primeiro ponto, é que não existe um modelo nórdico. Cada país trabalha de forma diferente. Na Noruega, camisinhas são distribuídas para trabalhadoras do sexo, enquanto na Suécia, é ilegal distribuir, pois é considerado uma forma de incentivo. Em alguns países o foco é em tornar a vida de prostitutas mais seguras, em outros o foco é exclusivamente em remove-las da condição de prostitutas. Existem algumas características que podem ser identificadas como tipicamente nórdicas quando se trata de um panorama mais geral, mas um modelo único é inexistente e fruto de uma simplificação.[1]

Além disso, os países que se encaixariam no "modelo" proíbem imigrantes de serem prostitutas. Isso chega ao ponto de negar arbitrariamente a entrada no país caso haja suspeita de que você esteja indo para trabalhar em prostituição, o que vai contra a ideia de acabar com a demanda e trata as prostitutas/vitimas de trafico de pessoas como o problema.[1]

Para piorar, devido as estratégias de combate a caftinagem, a perseguição a trabalhadoras do sexo ainda acontece: existem casos onde a polícia coage os proprietários de imóveis a expulsar trabalhadoras de suas casas, pois indiretamente estariam lucrando com trabalho sexual, e isso contaria como caftinagem. Isso também vale para motoristas e guardas contratados. Até mesmo trabalhar junto com outras mulheres pode ser ilegal dependendo do país, pois é considerado manter um bordel.[2]

A defesa deste "modelo" acaba por ser apenas mais uma forma paternalista de solucionar um problema social.

O "modelo nórdico", como é proposto, além de ser uma simplificação grosseira, é ineficaz e termina gerando apenas mais isolamento econômico e social para trabalhadoras do sexo. Ao invés de tornar suas vidas mais seguras, as empurra ainda mais para a ilegalidade e condições de trabalho perigosas. Dentro da nossa sociedade, a melhor proposta ainda é a descriminalização, para que trabalhadoras do sexo possam vir com suas próprias soluções coletivas.

[1] Sinais ambíguos na política nórdica em prostituição (em inglês) - http://kjonnsforskning.no/en/2015/09/mixed-signals-nordic-prostitution-policy

[2] Trabalho sexual - Sex Work | Philosophy Tube (em inglês) - https://www.youtube.com/watch?v=1DZfUzxZ2VU

2 comentários:

  1. Não entendi. Afinal, trabalho sexual é (deve ser) trabalho ou não? Sempre achei totalmente incompatível com a visão marxista, além de diretamente reforçar a cultura do estupro e hierarquia patriarcal.

    Esse vídeo referenciado é o pior do Ollie. Ele equipara uma terf que endorsa pseudociência à Kollontai, uma figura histórica do socialismo e do feminismo. Sem falar na representante que ele escolhe para o vídeo, ou nas anedotas de twitter.

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  2. Trabalho sexual é trabalho. Mas o ponto do texto não é bem esse, e sim de que o 'modelo nórdico" (ou melhor, a proibição da demanda), é ineficaz e prejudicial,.

    Eu pessoalmente -autora- não sou marxista, e sim anarquista, e entendo que a melhor forma de trabalhadoras do sexo transformarem suas condições é através de organizações autônomas onde elas fazem as escolhas sobre sua condição. Lembrando que falo delas se organizarem como trabalhadoras, de forma sindicalizada. Cafetão/cafetina é basicamente burguês.

    Quanto ao vídeo, concordo que não é o melhor dele. Apresentei como referência mais pelas informações contidas (e bem condensadas) do que pelos momentos opinativos. Talvez pudesse ter deixado claro no texto. Na parte em que ele fala da Kollontai porém, interpretei que ele quis dizer que o feminismo costuma ter mais ou menos a mesma postura sobre prostituição/trabalho sexual até anos recentes. Mas posso estar errada porque já tem um tempinho que vi.

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