Artigo de Lindsay Murph e Jonathan Livingstone, publicado originalmente na revista Race & Class em 1985, traduzido para o nosso blog em 2019.
Este texto foi escrito em 1985, então é de se esperar que esteja contextualizado em sua época.
O que está entre aspas () são as notas, o que está entre colchetes [] são as referencias.
Feminismo e racismo
O feminismo radical, por não entender o racismo como uma opressão ligada
inseparavelmente a certos interesses econômicos (personalizando, naturalizando e
colorindo), está ameaçado em suas próprias premissas pela questão da raça. Todos os
brancos são racistas - o que tornaria as mulheres brancas também opressoras das
mulheres negras, e implicaria que o racismo é tão fundamental quanto o machismo; ou
todas as mulheres, independentemente de cor, estão unidas pela sororidade porque a maior
divisão da sociedade é a divisão de gênero? Em última análise, e depois de algum
contorcionismo (veja os debates em Spare Rib nos últimos três anos em que foram feitas
tentativas para chamar todos os brancos racistas e, em virtude da cor da pele, os
detentores de poder sobre todas as mulheres negras, independentemente de outras fatores
feministas), o feminismo radical teve que tornar o racismo subordinado ao machismo ou
então deixaria de ser feminismo radical.
Uma vez que o patriarcado (machismo) ou, mais claramente, os homens são
colocados como a raiz de todo o mal - todas as considerações econômicas colocadas
firmemente fora de jogo - a luta contra o racismo se dilui ou desaparece completamente. A
preocupação não é com o racismo, com as mulheres mais oprimidas na luta contra a
"branquidade", mas com o governo dos homens. As mulheres negras, sendo mulheres mais
oprimidas que mulheres brancas (uma estipulação que ignora as diferenças de classe),
estão em primeiro lugar na liga das mulheres oprimidas.
Grande parte do interesse do movimento feminista pelas mulheres negras não é
uma preocupação com o racismo, mas uma proclamação da sororidade com todas as
mulheres do mundo - validando o primeiro princípio do feminismo radical: que o patriarcado
é a opressão fundamental. É o mesmo princípio que fundamenta a fantasia feminista radical
Born in Flames. Neste filme, as mulheres, independentemente de suas diferenças de raça e
classe, estavam lutando juntas contra homens. Mulheres negras lutavam ao lado de
mulheres brancas contra homens negros e brancos; mulheres da classe trabalhadora
lutavam com mulheres de classe média contra homens da classe trabalhadora e homens de
classe média. Raça e classe são superadas na luta comum e fundamental - contra os
homens.
Houve racismo em Born in Flames? Certamente, continha imagens racistas
estereotipadas de mulheres negras e, como tal, era uma fantasia branca sobre mulheres
negras - mas retratava algum racismo? Obviamente não. Mulheres negras se tornam as
heroínas do movimento feminista radical - prova viva de suas teorias - e recebem uma
posição privilegiada. Mulheres negras se tornam mais que as mulheres: se tornam
supermulheres.
Algumas feministas, no entanto, reconhecem que o racismo (whitearchy) é tão
fundamental quanto o machismo (patriarcado). Mas mesmo elas (embora não
necessariamente feministas radicais declaradas), ao tentar afirmar alguma semelhança
entre mulheres brancas e pessoas negras, acabam aparentando associar o racismo à
masculinidade, deixando mulheres brancas fora do racismo. Assim, Hazel Carby, em um
artigo geralmente bom sobre as fronteiras da sororidade branca, usa o termo "herstory" para
escrever sobre a "história das mulheres", mas calunia a mesma história quando as
feministas brancas não levam em consideração as vidas de suas irmãs negras:
A herstory das mulheres negras está entrelaçada com a das mulheres brancas, mas isso não significa que são a mesma história. Também não precisamos de feministas brancas para escrever nossa história para nós, podemos e estamos fazendo isso por nós mesmas. No entanto, quando escrevem sua história e chamam de história das mulheres e ignoram nossas vidas e negam suas relações conosco, esse é o momento em que estão agindo dentro das relações de racismo e escrevendo história.[8]
Assim, quando as mulheres são racistas, elas não estão sendo realmente mulheres
brancas, elas estão sendo homens.[9]
Susan Hemmings vai um pouco mais longe em um artigo-chave sobre o racismo.
Depois de "confessar" que "o racismo é difundido e institucionalizado", nenhuma feminista
branca pode dizer nos dizer "eu não sou racista", pois repentinamente estão elegendo o
homem branco como o problema: apontam que em nosso mundo, "o homem é o protótipo" -
e todas nós somos mensuradas, negativamente a partir dele. Mas também poderíamos
dizer "homem branco".
Um exemplo clássico da tendência de tornar o homem branco o inimigo arquetípico
pode ser tirado de Beatrix Campbell. Segundo ela, “o movimento feminista...está
aprendendo da maneira mais difícil" que a noção de pessoas "despossuídas da política"(7)
não pode suprimir as diferenças experimentadas pelas mulheres negras e brancas,
fisicamente capazes e deficientes, da classe trabalhadora e da classe média”[10]. Mas no
parágrafo seguinte ela diz, “Há apenas uma coisa que elas compartilham, que não são
como homens brancos, fisicamente aptos e heterossexuais”. No primeiro parágrafo
Campbell admite diferenças de raça e classe (de experiência, em qualquer grau), apenas
para afastá-las no segundo parágrafo e reafirmar (na tendência do feminismo radical) a
divisão fundamental: aquela entre homens e mulheres. Assim, embora as mulheres brancas
e negras possam ter experiências diferentes (um termo que suprime o papel das mulheres
brancas como opressoras das mulheres negras), todas compartilham “talvez” uma coisa,
não são homens brancos, que com facilidade, tornam-se os verdadeiros opressores
(mulheres e homens negros sendo salvos e o homem branco da classe trabalhadora jogado
com o resto).
Colocar o racismo como dependente do patriarcado, como o feminismo radical tende
a fazer, nega a autonomia da luta negra. Induz a um luta longe de atacar o racismo e o
envolve em discussões fúteis e atividades supérfluas. Mulheres brancas têm uma atitude
diferente em relação às mulheres negras do que esperariam - ou admitiriam - que os
homens adotassem em relação a elas. Mulheres brancas estão colocando as mulheres
negras em posições elas não sonhariam em ocupar em relação aos homens. Mulheres
negras estão sendo submetidas a explicar racismo às mulheres brancas! Elas não falam
com homens sobre machismo, mas esperam que mulheres negras conversem com elas
sobre racismo!
O feminismo radical, embora interessado em mulheres negras, não está realmente
interessado no racismo. Também não está interessado na classe trabalhadora. A classe
trabalhadora (e a luta de classes) também incorpora homens. Prefaciando uma entrevista
com mulheres envolvidas na greve dos mineiros, um editorial no Outwrite diz:
Enquanto nós, no Outwrite, celebramos a participação das mulheres na greve, especialmente a solidariedade que tem sido construída entre elas, desconfiamos das instituições masculinas como a N.U.M. (Arthur o campeão dos direitos das mulheres renascidas!), O Partido Trabalhista e a esquerda em geral, que estão glamourizando a ação das mulheres. É uma maravilha elogiar as esposas dos mineiros por estarem “na linha de frente da luta” nos piquetes e manter as casas e as comunidades unidas (ou seja, explorando-se excessivamente pela causa dos mineiros).[11]
É interessante notar (em um artigo de tendências feministas mais socialistas do que
radicais) que, em vez de aplaudir a participação das mulheres na luta de classes, Outwrite
celebra especialmente a solidariedade entre as mulheres; tenta negar que a causa dos
mineiros é a causa das mulheres (no interesse de sua classe); e não consegue entender
sua luta conjunta por suas comunidades. Veja a definição de classe trabalhadora dada no
Spare Rib (uma revista de tendências predominantemente feministas radicais):
Todos aqueles que trabalham com as mãos. As pessoas geralmente equiparam o trabalho de fábrica como sendo o da classe trabalhadora, mas o trabalho de fábrica nem é o pior nem o com menor status na nossa sociedade - trabalhadores domésticos, trabalhadores agrícolas e faxineiros, por exemplo, estão em situação pior … a classe trabalhadora tem um forte orgulho histórico aqui. Mas, por outro lado, negros e muitas mulheres sem marido nem sequer são aceitos na classe trabalhadora.[12]
***
O feminismo radical surgiu com os fracassos do movimento socialista em relação à
opressão das mulheres. Se é para evitar mais mutações, o movimento deve retornar à
síntese da consciência feminista e da análise socialista a que Juliet Mitchell falou em 1971.
É somente quando a luta contra a opressão e contra o sistema capitalista é vista como uma
luta tripartite - contra a opressão de pessoas negras (whitearchy), a opressão das mulheres
(patriarcado) e a opressão da classe trabalhadora - que a luta negra, o feminismo e o
socialismo estarão juntos, autônomos mas inseparáveis, iguais contra o inimigo comum. O
racismo e o machismo se tornariam então irredutíveis à opressão da classe trabalhadora,
que depende de ambos que por sua vez, dependem uns dos outros.
Notas
(7) Ou seja, aqueles que ela considera fora dos “meios de organização e maquinaria da
política” do movimento operário.
Referências
[8] Hazel Carby, ’Black feminism and the boundaries of sisterhood’, in The Empire Strikes Back (London, 1982), p. 213.
[9] Spare Rib (No. 101, 1980).
[10] Beatrix Campbell, ’Politics, pyramids and people’, Marxism Today (December 1984), p. 26.
[11] Outwrite (No. 28, August 1984).
[12] Spare Rib (No. 138, January 1984), p. 30.
Clarke não está falando do lesbianismo da mesma forma que uma feminista radical branca de classe média dos anos 80, nem nega as opressões econômicas ou apela para algum tipo de essencialismo. Para ela o fato dato de ser lésbica dentro de uma "supremacia machista, capitalista, misógina, racista, homofóbica..." já era uma ato de resistência.
As posições do artigo sobre etnia, racismo e etnicidade também podem ser bem impactantes e controversas aos dias atuais, onde existe uma tendência cada vez maior por fragmentar as lutas raciais em campos diferentes, com discussões sobre colorismo e coisas do tipo, os autores reforçam que esse tipo de tendência tende a enfraquecer o movimento e é uma forma que o capitalismo e o liberalismo racista encontraram para amenizar as rebeliões e lutas negras da época. Outras feministas negras como Verena Stolcke vai defender posições teóricas semelhantes para não dizer iguais.[3]
Para finalizar, o texto expõe questões interessantes, nos mostra um pouco da história dos embates feministas, sobre algumas tendências político-teóricas radicais e o revisionismo histórico que hoje tem sido feito para apagar tais tendências. Mas o nosso objetivo é justamente mostrar como o feminismo radical está insuflado dessas histórias e pensamentos contraditórios que não servem a luta feminista.
Comentários do Blog sobre o texto
Escrito em 1985, o artigo "Racismo e os limites do feminismo radical" foi desenvolvido em uma época bem diferente da nossa, pelo fato de que o contexto das lutas sociais da época difere um pouco dos dias atuais. Era em que se discutia direitos civis de negros e migrantes na Inglaterra, e que poderíamos facilmente estender para o resto do mundo, na África do Sul e nos EUAS principalmente. Mas questões raciais não eram as únicas coisas a serem pensadas, tínhamos uma forte manifestação pelos direitos das mulheres em vários níveis e embates, e esse é o ponto mais interessante deste artigo.
O texto nos mostra um debate que nos evidenciam talvez as primeiras manifestações questionando a legitimidade do feminismo radical. Em 1985 já tínhamos teóricas como Bell Hooks e Audre Lord que fariam trabalhos importantes na cisão da segunda e para a terceira onda do feminismo, e nesse contexto exato se encaixa o artigo; quanto o feminismo radical começa a perder sua força e decair sua influência teórica.
Ao ler, podem ter algum estranhamento a respeito de algumas coisas ditas, coisas que provavelmente nós não conseguimos aferir de acordo com o feminismo radical que (re)surgiu entre a primeira e a segunda década do novo milênio. Como por exemplo, dizer que o feminismo radical não é materialista, um título que atualmente as radicais reividicam com toda força, ou dizer que o feminismo radical prega uma essência feminina e masculina. Mas como já dito, o texto foi escrito dentro do seu contexto, Lindsay Murph e Jonathan Livingstone estavam vivendo tudo isso no momento, então é de se esperar que eles sabiam bem do que estava se passando. As atuais feministas radicais também escondem parte de seu passado, o Feminismo Cultural que foi uma subvertente do feminismo radical pregava que a natureza feminina fazia mulheres ser mais adequadas a governar o mundo, como conta Linda Alcoff:
O feminismo cultural é a ideologia de uma natureza feminina ou essência feminina reapropriada pelas próprias feministas em um esforço para revalidar atributos femininos subvalorizados. Para as feministas culturais, o inimigo das mulheres não é meramente um sistema social ou uma instituição econômica ou um conjunto de crenças retrógradas, mas a própria masculinidade e, em alguns casos, a biologia masculina.[1]
Linda cita duas grande preponentes desta teoria, Mary Daly e Adrienne Rich, que eram ambas feministas radicais que pregavam o lesbianismo político.
E falando em lesbianismo político, o texto nos leva a outra questão, o separatismo. Atualmente o separatismo não é um debate que vemos com frequência dentro dos debates feministas, mas ainda é possível ver os resquícios desse debate que foi comum durante os anos 60, 70 e 80 que era levantado pelas radicais. O separatismo era uma posição prática de que homens por terem alguma natureza ou essência machista jamais poderiam viver com mulheres sem conflito, então o separatismo seria a única solução. O lesbianismo político pregado pelas radicais surge disso, e até hoje é uma posição que podemos ver sendo defendida, mesmo negando sua origem essencialista e idealista.
Existem entretanto outros pontos de vista sobre algumas coisas levantadas pelo texto que não poderíamos deixar em branco, como a visão do lesbianismo como um ato de resistência de Cherly Clarke que fazia parte do feminismo negro
As lésbicas negras, como qualquer outra mulher não-branca e da classe operária e pobre nos Estados Unidos, não sofreram o luxo, o privilégio, nem a opressão de ser dependente de um homem. Ainda que nossa contra-parte masculina tenha estado presente, compartilhando nosso trabalho e luta, nunca estivemos dependendo de seu machismo para que “nos cuide”, só com seus próprios recursos. Evidentemente, essa é outra “ilusão neurótica”imposta a nossos pais, irmãos, amantes, e maridos de que eles devem “cuidar-nos” porque somos mulheres. Traduzir: “cuidar-nos” equivale a “controlar-nos”. É o único poder de nossos irmãos, pais, amantes, maridos – o seu machismo. E ao menos que a masculinidade não seja embelezada pela pele branca e gerações de riqueza privada, esta possui muito pouco valor no patriarcado racista capitalista. [2]
As posições do artigo sobre etnia, racismo e etnicidade também podem ser bem impactantes e controversas aos dias atuais, onde existe uma tendência cada vez maior por fragmentar as lutas raciais em campos diferentes, com discussões sobre colorismo e coisas do tipo, os autores reforçam que esse tipo de tendência tende a enfraquecer o movimento e é uma forma que o capitalismo e o liberalismo racista encontraram para amenizar as rebeliões e lutas negras da época. Outras feministas negras como Verena Stolcke vai defender posições teóricas semelhantes para não dizer iguais.[3]
Para finalizar, o texto expõe questões interessantes, nos mostra um pouco da história dos embates feministas, sobre algumas tendências político-teóricas radicais e o revisionismo histórico que hoje tem sido feito para apagar tais tendências. Mas o nosso objetivo é justamente mostrar como o feminismo radical está insuflado dessas histórias e pensamentos contraditórios que não servem a luta feminista.
Referências:
[1] CULTURAL FEMINISM VERSUS POST- STRUCTURALISM: THE IDENTITY CRISIS IN FEMINIST THEORY, LINDA ALCOFF
[2] LESBIANISMO: UM ATO DE RESISTÊNCIA, CHERLY CLARKE
[3] SEXO ESTÁ PARA GÊNERO ASSIM COMO RAÇA ESTÁ PARA ETNICIDADE?, VERENA STOLCKE
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